Areia para os olhos: a cidade fora de campo?
Sand in the Eyes: The City Off-Screen?
19 de junho de 2026
June 19, 2026
No passado dia 17 de junho, no edifício de vidro do Parlamento Europeu, a poucos minutos de tram de onde moro, 418 deputados votaram a favor e 218 contra o chamado Regulamento de Regresso. O texto pretende aumentar a eficácia dos processos de retorno de cidadãos de países terceiros sem autorização de permanência na União Europeia. Entre as medidas aprovadas está a possibilidade de transferência para centros de retorno localizados fora do território da União, mediante acordos com países considerados seguros.
Os defensores da proposta apontam para um dado frequentemente repetido pelas instituições europeias: atualmente, apenas uma parte das ordens de saída emitidas pelos Estados-Membros é efetivamente executada. O problema é apresentado sobretudo como uma questão de eficácia administrativa. A discussão pública tende então a concentrar-se em números, procedimentos e taxas de execução. Mas essa linguagem técnica também produz um efeito político: desloca a atenção das experiências concretas das pessoas afetadas pelas decisões.
Durante os meus trabalhos recentes com fotografia e com cidades, venho aprendendo que fotografar é, antes de tudo, recortar. Quando se aponta a câmera para um espaço, seleciona-se um fragmento da realidade. A escolha, por si só, deixa de ser neutra e passa a atuar a partir de uma intencionalidade: enquadrar o que permanece e o que fica de fora. Essa decisão analítica e consciente tem impacto direto sobre quem vê. É o que o cinema chama de fora de campo: mesmo aquilo que não vemos continua a existir e a influenciar as nossas percepções.
Penso frequentemente nesse conceito quando observo os debates sobre migração. As políticas migratórias não administram fronteiras. Administram visibilidade. Definem quem aparece como parte legítima da paisagem urbana e quem é dela apagado. Em diferentes momentos da história europeia, certos grupos foram representados como pertencentes ao espaço comum, enquanto outros surgiram sobretudo associados à exceção, à vigilância ou ao controle.
É nesse sentido que os centros de retorno fora da União Europeia me parecem significativos. Para além das questões jurídicas que suscitam, criam uma distância física entre as sociedades europeias e as consequências das suas próprias decisões. Pessoas sujeitas a processos de expulsão deixam de estar presentes no espaço público europeu. A gestão da migração torna-se menos visível para quem vive dentro das fronteiras da União — e o que os olhos não veem, o coração não sente. Acalmam-se os ânimos de uma população que continua incomodada com o multiculturalismo, desde que aquilo que se passa nos bastidores permaneça nos bastidores. A Europa para os europeus, enfim — e o resto, longe da vista.
Mas há um detalhe que estraga o enquadramento. A Europa vendeu de si mesma uma fotografia — o continente dos sonhos, da liberté, da égalité, da fraternité, a casa dos direitos humanos. Essa imagem rachou no próprio hemiciclo. Aprovado o regulamento, deputados da direita e da extrema-direita entoaram em coro "Send them back" — mandem-nos de volta —, enquanto uma minoria respondia "shame on you". Por detrás da fotografia institucional havia uma narrativa que, naquele momento, deixou de permanecer implícita.
Quando Césaire (1950) escreveu que "a Europa é indefensável", dirigia a sua crítica menos a indivíduos e sim a uma civilização que precisa inventar bárbaros para se dizer civilizada. A frase continua incômoda porque desloca o olhar daquilo que a Europa diz ser para aquilo que fez — e para as continuidades que persistem. Nesse contexto, vale a pena inverter a perspectiva habitual. Que leituras faríamos hoje desses discursos se os povos submetidos a invasões, colonizações e nomeações, dirigissem aos próprios europeus o mesmo coro?
Não é por acaso que essa indefensabilidade recai sempre sobre os mesmos. Nada disto começa com o regulamento. Grada Kilomba (2008), partindo da experiência negra, descreve a cena colonial como aquela em que certos corpos são devolvidos, uma e outra vez, ao lugar que lhes foi designado — o do servir, o do não pertencer, o do estar sempre de passagem. Mas o corpo racializado de que aqui se fala não se reduz à cor da pele. Ser racializado é ser lido pela Europa como não-europeu, e nessa leitura cabem todos os não pertencentes ao Norte Global. Todas as que o continente europeu quer longe do seu solo antes mesmo de saber os seus nomes. O centro de retorno é a versão jurídica e cartográfica dessa cena. Muda apenas a escala do gesto. O lugar designado deixou de ser os fundos da casa e passou a ser o outro lado do Mediterrâneo. A novidade não está na exclusão, esta é antiga; está em tê-la convertido em logística e em lei.
Os defensores da proposta lembram, com razão, que os Estados possuem o direito de regular as suas fronteiras e definir condições de entrada e permanência. A questão não é a existência desse poder. A questão é como ele é exercido, quais os seus efeitos e até que ponto os cidadãos conseguem ver e discutir as consequências das decisões tomadas em seu nome.
Talvez seja por isso que continuo a fotografar. Fotografar criticamente é desobedecer a essa função. Virar o enquadramento contra o enquadramento. Não para resolver o conflito político nem substituir o debate democrático, mas para recusar o álibi mais confortável de todos, o de não ter visto. Uma imagem não impede uma deportação. Impede, quando muito, que se diga depois que ninguém sabia.
O Parlamento Europeu aprovou um regulamento migratório. Esse é o fato. O significado político dessa decisão continuará a ser debatido nos próximos meses. Para mim, é mais do mesmo e uma das questões centrais permanece. Que tipo de cidade produzimos quando determinadas pessoas são progressivamente afastadas do campo de visão coletivo? Antes de discutir quem deve sair, vale a pena perguntar quem estamos dispostos a ver.
On 17 June, in the glass building of the European Parliament, a few tram stops from where I live, 418 MEPs voted in favour and 218 against the so-called Return Regulation. The text aims to increase the effectiveness of return procedures for third-country nationals without authorization to remain in the European Union. Among the approved measures is the possibility of transfer to return hubs located outside the Union's territory, through agreements with countries deemed safe.
The proposal's defenders point to a figure often repeated by the European institutions: at present, only a fraction of the departure orders issued by Member States is actually enforced. The problem is presented above all as a matter of administrative effectiveness. Public discussion then tends to focus on numbers, procedures and enforcement rates. But this technical language also produces a political effect: it shifts attention away from the concrete experiences of the people affected by the decisions.
Through my recent work with photography and with cities, I have been learning that to photograph is, above all, to cut. When you point the camera at a space, you select a fragment of reality. The choice, in itself, ceases to be neutral and begins to operate from an intention: to frame what remains and what is left out. This analytical, conscious decision has a direct impact on those who see. It is what cinema calls the off-screen: even what we do not see continues to exist and to shape our perceptions.
I often think of this concept when I watch the debates on migration. Migration policies do not manage borders. They manage visibility. They define who appears as a legitimate part of the urban landscape and who is erased from it. At different moments in European history, certain groups were represented as belonging to the common space, while others appeared mainly associated with exception, surveillance or control.
It is in this sense that the return hubs outside the European Union seem significant to me. Beyond the legal questions they raise, they create a physical distance between European societies and the consequences of their own decisions. People subject to expulsion proceedings cease to be present in European public space. The management of migration becomes less visible to those who live within the Union's borders — and what the eyes do not see, the heart does not feel. The tempers of a population still uneasy with multiculturalism are soothed, as long as what happens backstage stays backstage. Europe for the Europeans, in short — and the rest, out of sight.
But there is a detail that ruins the frame. Europe has sold an image of itself — the continent of dreams, of liberté, égalité, fraternité, the home of human rights. That image cracked in the hemicycle itself. Once the regulation was approved, MEPs from the right and the far right chanted "Send them back" in chorus, while a minority answered "shame on you". Behind the institutional photograph there was a narrative that, in that moment, stopped remaining implicit.
When Césaire (1950) wrote that "Europe is indefensible", he aimed his critique less at individuals than at a civilization that needs to invent barbarians in order to call itself civilized. The phrase remains uncomfortable because it shifts the gaze from what Europe says it is to what it has done — and to the continuities that persist. In this context, it is worth reversing the usual perspective. What readings would we make today of these speeches if the peoples subjected to invasions, colonizations and namings were to direct the same chorus at the Europeans themselves?
It is no accident that this indefensibility always falls on the same people. None of this begins with the regulation. Grada Kilomba (2008), starting from the Black experience, describes the colonial scene as one in which certain bodies are returned, again and again, to the place assigned to them — that of serving, of not belonging, of always being in transit. But the racialized body spoken of here is not reducible to skin colour. To be racialized is to be read by Europe as non-European, and that reading takes in all those who do not belong to the Global North. All those whom the European continent wants far from its soil before it even knows their names. The return hub is the legal and cartographic version of that scene. Only the scale of the gesture changes. The assigned place is no longer the back of the house but the other side of the Mediterranean. The novelty is not exclusion, which is old; it is having turned it into logistics and into law.
The proposal's defenders rightly recall that States have the right to regulate their borders and to define conditions of entry and stay. The question is not the existence of that power. The question is how it is exercised, what its effects are, and to what extent citizens are able to see and discuss the consequences of the decisions taken in their name.
Perhaps that is why I keep photographing. To photograph critically is to disobey that function. To turn the frame against the frame. Not to resolve the political conflict or to replace democratic debate, but to refuse the most comfortable alibi of all, that of not having seen. An image does not prevent a deportation. At most, it prevents anyone from saying afterwards that no one knew.
The European Parliament has approved a migration regulation. That is the fact. The political meaning of this decision will go on being debated in the coming months. To me, it is more of the same, and one of the central questions remains. What kind of city do we produce when certain people are progressively pushed out of the collective field of vision? Before discussing who should leave, it is worth asking whom we are willing to see.